domingo, 16 de março de 2014

Por dentro da educação pública: Um relato pessoal

Entenda por que é tão difícil ser professor em um sistema caro e ineficiente. Afinal, por que a escola pública é tão ruim? 

A ineficiência do estado não é novidade para ninguém [já escrevi isso aqui e aqui]. Todavia, além de blogueiro amador, também sou professor de ensino fundamental e médio: leciono em uma escola pública situada entre a periferia e a área rural de uma cidade-satélite, nos confins do lugar-nenhum. Convivo todos os dias com a pobreza, a impunidade, e a lerdeza estatal. Assim, meu dia-a-dia se resume em (tentar) passar conhecimento à crianças e jovens envolvidos em tráfico de drogas, prostituição, gravidez precoce e falta de estrutura familiar.

Um dos maiores problemas da escola pública é sistema de progressão continuada, implantado aqui no Brasil através da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (1996). Este nivela o nível da educação pelo gargalo, abolindo a repetência e premiando os piores alunos. Com exceção de poucas séries, todos passam maravilhosamente de ano. Assim, por mais terrível que o aluno seja, sempre será premiado. Nesse sistema, não existem freios à preguiça e ao mau caratismo: todos são aprovados e ponto final.

A escola pública é um depósito de gente, no qual indivíduos são transformados em massas amorfas.

A escola pública é um depósito de alunos, construído pelos reflexos da destruição da família ocidental. Enquanto pais estão "ocupados demais" para dar carinho e atenção à seus filhos, o estado vai, perigosamente, tomando o lugar da família, ensinando valores que deveriam estar inclusos na bagagem de casa, como respeito, humildade e, enfim, convivência básica em sociedade. Numa total inversão de valores, além de lecionar a sua disciplina original, o professor é obrigado a educar o filho dos outros.

Soma-se a isso o fato da escola pública ser totalmente ausente de meritocracia. Independentemente da competência do profissional em questão, o salário-base é o mesmo. Se você for um professor exemplar, disciplinado e inteligente, ganhará R$1000,00. Mas se você for um professor acomodado, incompetente e enrolador, ganhará R$1000,00 também! Dadas raras exceções, não existem incentivos! É um sistema que premia os piores, constituindo um verdadeiro paraíso comunista!

Muitos professores simplesmente jogam a matéria na lousa, não se preocupando em ensinar. E estes ganham a mesma coisa que os bons e criativos ganham.

Além disso, as salas de aula são terrivelmente heterogêneas. Em nome da "igualdade" e da "inclusão", somos obrigados a enquadrar, de forma arbitrária, diferentes alunos em um mesmo programa de ensino. Nesse sistema, os disléxicos tiram notas baixas e os superdotados ficam entendiados. O ensino é enlatado, massificado e sem sal: os inteligentes emburrecem e os burros ficam para trás

Como se não bastasse, a sala de aula é uma verdadeira guerra civil. É um ambiente para poucos: conheço vários colegas que desistiram da profissão extenuante. Para explicar a matéria, somos obrigados à fazer verdadeiros escândalos teatrais para sermos ouvidos por reles cinco minutinhos. Ao entrarmos numa sala de aula, transformamo-nos em grandes generais ditatoriais. Assim, por mais ludicidade e interatividade que o professor traga à seu público, como vídeos, jogos, imagens, notícias e fatos do dia-a-dia, o caos e a bagunça são inevitáveis.

Professores se preparando para as aulas!

Por fim, cabe ressaltar o papel limitado que a direção da escola possui. Por mais problemático que um aluno seja, nem o coordenador pedagógico e nem o diretor podem expulsá-lo da unidade escolar, mesmo que este cause terror aos professores e impeça o aprendizado dos colegas. Impotentes e de mãos atadas, e na ânsia de livrá-los da escola, os dirigentes acabam criando os "alunos cinquinho". Isto é, aqueles que sempre tirarão cinco "pra ir embora logo".

"O que a gente faz com o João Bandido? Dá cinquinho pra ele!"

Entretanto, apesar de reclamão, devo agradecer aos céus. Como passei em uma excelente posição no concurso de professor, escolhi uma escola de referência, com poucos bandidos. Acreditem ou não, conheço locais que o traficante impõe as regras: o aluno vai armado e o diretor deve se curvar à malandragem. Nestas escolas, ameaças físicas e venda de drogas são fatores corriqueiros. Você deixaria seu filho em um lugar desses?


Comentários
12 Comentários

12 comentários :

  1. Estimado ex-comunista,
    Até a wikipedia nos informa que grandes educadores brasileiros, por ex. Anisio Teixeira, beberam nas mesmas fontes que formaram o sistema educativo dos EUA.

    Portanto, conhecer esse sistema aprofunda nosso conhecimento e entendimento do que acontece não só na escola, mas dentro de nossa casa.

    Recomendo-lhe a leitura dos textos de John Taylor Gatto no seu próprio site. Trata-se de relatos e estudos históricos de um professor aposentado.
    http://www.johntaylorgatto.com/

    Se houver dificuldades em inglês, recomendo em espanhol:

    http://historiasecretadelsistemaeducativo.weebly.com/indicegeneral.html


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    1. Olá Sandra! Já favoritei o link que você recomendou! Obrigado! Quando tiver calma com certeza lerei.

      Não sei como funciona o sistema educativo dos EUA, mas suponho que deva ser melhor que o nosso.

      Abraço

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  2. O ensino no Brasil é um lixo. Pior, muito pior,nas escolas publicas....ninguem aprende nada

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    1. Não aprende mesmo. É tudo enrolação.

      A escola é uma anarquia total, não existem chefes e o professor pode fazer praticamente o que quiser. Eu faço um bom trabalho porque EU NÃO CONSEGUIRIA DORMIR sem ensinar. Mas se eu fosse um vagabundo ninguém me mandaria embora, é fechar a porta da sala e acabou!

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  3. Pessoal, achei um vídeo muito bom no you tube. É uma paródia da música do Chico Buarque sobre a realidade da nossa educação. Vejam e divulguem:
    https://www.youtube.com/watch?v=0Ec20JZNr24
    Alex

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    1. Esse vídeo é simplesmente GENIAL! Já assisti mais de dez vezes! É exatamente isso que acontece nas escolas e nas universidades do Brasil.

      Recomendo "Águas de Julho" e "Pais e Filhos de Esquerda", são igualmente geniais!!

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  4. Ótimo texto, como aluno de ensino médio que fui a menos de 3 meses atrás, posso confirmar tudo que você escreveu, é realmente triste estudar nas escolas públicas, passei meus últimos 14 sendo lobotizado por professores fracassados que não tinham a mínima condição de serem professores, apenas entravam em suas mesas e mandavam fazer exercícios de página do livro, fora as greves que estes causadores faziam, prejudicavam inúmeras famílias e alunos que tinham planos para o fim de ano.

    Este blog é ótimo, vou acompanhar sempre a partir de agora...

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    1. Espero que você tenha um bom futuro, mesmo sendo de escola pública! Eu estudei na mesma escola em que dou aula, e sei que é difícil...

      Apesar da gente ficar um tempão discutindo sobre lobotomização (eu mesmo já falei disso aqui http://www.diariodeumexcomunista.blogspot.com.br/2013/07/universidade-e-panfletagem-politica-uma.html), a verdade é que muitos alunos de ensino médio não sabem nem interpretar gráfico direito!

      Cara, eu tô só esperando alguma greve pra falar na cara dos meus colegas "não vou participar: vou ficar aqui ensinando os alunos".

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  5. Senhores do DIÁRIO DE UM EX-COMUNISTA, quero avisá-los que antigamente a educação era mais severa, existiam os Juizados de Menores, que colocavam os anteoctodécimos para dentro de suas casas entre as 22h e as 7h do dia seguinte, as palmatórias eram usadas mais nas escolas, ninguém ficava seminu nem muito menos nu nem nos Carnavais e assim sucessivamente. Praticamente, não tinha tanta gente usando drogas, praticando crimes e assim sucessivamente. Por isso, antigamente era melhor do que hoje, pois a juventude era mais educada. Agradeço-lhes de todo o meu coração! Desejo-lhes uma Próspera Quaresma de 2014! Obrigado!

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    1. Leonardo, muito bem observado!

      Hoje os alunos são totalmente livres para NÃO estudar.

      1) Não sofrem castigos por mal comportamento. Não digo só palmatória, mas eles SEQUER repetem de ano.

      2) Não sofrem castigos por notas ruins: se mais de 50% da classe for mal, a "culpa é do professor".

      2) Não podem ser expulsos da escola, no máximo levar advertências que não servem para nada.

      3) Podem falar abertamente que usam drogas e praticam assaltos (alguns de meus alunos falaram isso!), sem sofrerem consequências.

      Abraço e obrigado por gostar do blog!

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  6. Lamentável essa situação!
    Parabéns pela denúncia!
    Vamos continuar lutando para mudar essa realidade!

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Mais dúvidas? Pergunte-me em: http://ask.fm/diariodeumexcomunista